ancestralidade

Ancestralidade e mercado de trabalho: como os dois conceitos se relacionam

Ancestralidade é o conjunto de características, valores e cultura que herdamos dos nossos antepassados. Ela está presente desde o nosso gene ao que compreendemos como certo ou errado, incluindo a esfera profissional. 

O mercado de trabalho aos poucos está mudando e muitas empresas já sabem a importância da diversidade para o sucesso dos seus negócios.

Como apontado na pesquisa realizada pela McKinsey & Company, quem investe na diversidade racial e étnica apresenta 35% de propensão de melhoria da performance financeira. 

Por isso, é preciso entender a importância da ancestralidade para os colaboradores racializados.

Nesse conteúdo, saiba tudo sobre a relação entre a ancestralidade e o mercado de trabalho.

Ancestralidade: o que é e a sua importância para pessoas negras

Ancestralidade é tudo aquilo que se refere ao que veio antes, as gerações passadas e que que se relacionam a partir de memórias coletivas. Ela também atribui identidade e pertencimento às comunidades humanas.

Para a filósofa Katiúscia Ribeiro, a ancestralidade não é restringida pela árvore genealógica, mas sim pela maneira como os antepassados são percebidos e relembrados. Ela acredita que é através desse processo que pessoas negras se localizam dentro de uma realidade histórica, filosófica e cultural. 

Assim, a ancestralidade possui um papel fundamental para mudanças de perspectivas sobre um passado que, em geral, foi criado ou limitado com o objetivo de embasar discursos racistas. 

Povos historicamente marginalizados reafirmam seus papéis enquanto sujeitos históricos, conscientes do vínculo comunitário que compartilham, valorizando as suas origens.

Dessa forma, no espaço de trabalho o olhar em direção ao passado e ao legado dos ancestrais contribuem para:

  • o resgate e fortalecimento da autoestima;
  • a confiança na sua capacidade intelectual, diminuindo a autossabotagem;
  • a segurança na proposição de novas ideias e soluções para problemas;
  • a construção de novas narrativas sobre a população negra, retomando espaço de protagonismos que foram negados;
  • o fortalecimento das famílias negras, principalmente das que são chefiadas por mulheres; 
  • a representatividade, abrindo espaço para que mais pessoas pretas e pardas possam sair do lugar de marginalização no qual foram colocadas.

Por isso, veja como as pessoas negras podem desenvolver suas habilidades profissionais a partir dos saberes passados. 

Como o desenvolvimento profissional é influenciado pelos saberes ancestrais? 

Grupos tradicionais se diferenciam por sua perspectiva holística sobre os indivíduos e as comunidades que os constituem. Por isso, o desenvolvimento profissional está associado a outros contextos formativos pelas quais as pessoas vivenciam. 

A ancestralidade para negros perpassa diretamente por todos os aspectos das suas vidas. No ambiente de trabalho não é diferente. 

O sentido de comunidade é muito vivo para essa população. A filosofia Ubuntu, de origem do sul do continente africano, considera a existência de uma ética da coletividade, onde todas as pessoas fazem parte de algo que vai além de uma perspectiva individual. 

A partir dela, são pensadas a importância do respeito e da solidariedade como elementos fundamentais para o funcionamento pleno da humanidade. Para um ambiente de trabalho saudável é imprescindível que se considere esses dois pilares nas relações entre colaboradores e lideranças. 

Esses preceitos favorecem o sentimento de pertencimento na equipe, aumentando a motivação, a retenção de talentos e diminuindo as probabilidades de queda no faturamento dos negócios. 

A ancestralidade também interfere na criatividade. A especialista em finanças e fundadora do Grana Preta, Amanda Dias, aponta como as mulheres negras ao longo da história precisaram utilizar estratégias criativas para conseguir a sobrevivência financeira.

É o caso da tradição do comércio de rua praticado por elas no Brasil. Amanda relembra a influência da cultura ancestral Iorubá que considera a prosperidade e a negociação como algo muito importante. 

Em razão disso, ao planejar a estratégia empresarial é importante considerar como a agenda D&I pode enriquecer a equipe de colaboração trazendo óticas criativas para a companhia. 

Porém, para um ambiente de fato inclusivo é preciso entender as particularidades de cada grupo. Dores, depressão e síndrome de impostor podem ser uma herança de traumas passados. 

A seguir, entenda como o trauma ancestral está relacionado com a saúde mental de pessoas racializadas.

Trauma ancestral e a saúde mental no mundo corporativo

Pesquisas em genética demonstram que além das características físicas, os genes herdados dos antepassados podem repassar também traumas vividos pelos bisavós, avós ou pais. 

Com base nisso, as violências sofridas pela escravização não podem ser mensuradas apenas considerando as gerações passadas. Seus efeitos materiais e psicológicos ainda estão presentes nessa geração e poderão ser sentidos pelas gerações futuras.

Por isso a importância da ancestralidade para muitas negras e negros é percebida como um caminho de cura. 

Atualmente existe um forte debate sobre saúde mental no mundo corporativo. Ela pode ser prejudicada por diversos fatores, como a carga de trabalho excessiva. No entanto, para pretos e pardos há o agravante do racismo estrutural que enfrentam.

Uma prática comum de racismo no trabalho é a intolerância religiosa. Quem professa a fé em religiões afro-brasileiras pode sofrer constrangimentos. Isso pode acontecer através de olhares, estigmas ou comentários. É comum que se sintam intimidados ao utilizarem acessórios, como guias de orixás.

A solidão é outra violência recorrente da invisibilidade de pessoas negras. Muitas vezes elas estão em espaços onde não existem outras pessoas pretas ou pardas. Falas racistas podem acontecer e a falta de uma rede de proteção e apoio pode gerar o silenciamento das vítimas.

Portanto, é importante conhecer e adotar medidas que considerem as políticas de diversidade, equidade e inclusão nas instituições.

Dicas de como a sua empresa pode desenvolver um espaço antirracista

Considerando a importância da ancestralidade para negros e como ela está presente no seu exercício profissional, confira agora algumas dicas de como transformar a cultura da sua empresa a partir de boas práticas de D&I.

Escuta ativa

Uma pesquisa idealizada pela CNN apontou que 75% das empresas consideram o racismo como a principal discriminação no trabalho. Como meio de combater essas práticas é importante fortalecer a escuta ativa

Ela é uma estratégia bastante eficaz, pois permite com que a comunicação interna de uma organização seja de fato um meio onde todas as pessoas possam exercer a sua fala e posicionamento. 

Tratando-se de pessoas negras, a escuta ativa é também uma forma de diagnosticar e promover ações contra as desigualdades raciais no ambiente de trabalho.

Representatividade

Lideranças negras de grandes corporações acreditam que a mentalidade é um dos impeditivos para a existência de mais inclusão no mercado. 

Promover e proporcionar meios para que mais pessoas pretas e pardas estejam em posição de liderança é importante para que mais pessoas se sintam representadas.

É preciso também assegurar que essa representação não seja vazia, com apenas uma pessoa negra nessa função ou com uma liderança sem verdadeiro poder de decisão.

Reconhecimento profissional

Maioria a ocupar vagas em subempregos, pretos e pardos sofrem com a invisibilidade no trabalho. 

Muitos desses profissionais ao alcançar cargos que exigem mais qualificação precisam enfrentar questões como descrédito em relação a sua capacidade de gerar bons resultados, pouco reconhecimento, não sendo possível vislumbrar aumento salarial ou progressão de carreira.

Para um mercado de trabalho diverso é preciso respeitar a cultura e a ancestralidade das pessoas negras . Desenvolva estratégias que fortaleçam uma cultura de inclusão na sua empresa. Compartilhe esse conteúdo e saiba também como promover um plano de carreira para grupos minorizados.


Como a escuta ativa estimula ambientes mais diversos e inclusivos

A escuta ativa é uma habilidade que é desenvolvida, ou seja, quanto mais você pratica, mais ela se torna parte da rotina. No entanto, em um mundo com tantos dados e informações e cujas respostas precisam ser cada vez mais rápidas, escutar pode ser mais difícil que ouvir ou falar. 

Uma pesquisa realizada por acadêmicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com 652 pessoas, apontou a comunicação como o maior desafio do trabalho remoto, conforme 28% dos entrevistados. 

Esse mesmo estudo, publicado em 2020, também mostrou que dentro desse recorte, a comunicação com pares e gestores era a maior dificuldade (62%), seguido por comunicação com os clientes (26%) e comunicação organizacional (12%). 

A partir desses indicadores, entre as recomendações de boas práticas para as lideranças estava a ação de escutar ativamente. 

Em 2022, a pesquisa de “Tendências em Comunicação Interna”, promovida pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, destacou que  para 70% das empresas, o maior desafio das novas formas de operação é engajar gestores como comunicadores. 

Portanto, sabendo que a comunicação é uma via de mão dupla, saber escutar é essencial para as lideranças organizacionais, mas é claro que qualquer pessoa pode adotar essa prática. 

Os dados apresentados só reforçam a necessidade da escuta ativa nas empresas, principalmente quando essas organizações estão engajadas com estratégias de diversidade, equidade e inclusão. 

O que é escuta ativa e por que ela é importante?

A escuta ativa é uma prática na qual a pessoa que escuta volta toda a sua atenção para a pessoa que está falando, compreendendo o que é dito verbalmente e não verbalmente. 

Ela é usada em diversos contextos, visto que contribui com uma comunicação eficaz. Seja entre médicos e pacientes, pais e filhos, vendedor e potencial cliente, lideranças e liderados etc. 

Nas organizações que estão implementando políticas de diversidade e inclusão, a escuta ativa entra como componente das novas ações. Isso porque quando a empresa passa a incorporar a diversidade como potência, é comum que surjam dúvidas das pessoas colaboradoras. E até mesmo situações em que será preciso mediar conflitos. 

Benefícios da escuta ativa

  • melhora a comunicação entre colaboradores e colaboradoras com seus pares, gestores e clientes;
  • ajuda a evitar conflitos por erros de compreensão em diálogos; 
  • contribui para a melhoria no clima organizacional, visto que ao perceberem que estão sendo escutadas ativamente, as pessoas tendem a se sentirem mais seguras e valorizadas; 
  • facilita a busca por soluções e resultados, já que ao compreender a necessidade dos clientes, o trabalho se torna mais focado e alinhado;
  • ajuda lideranças inclusivas a entenderem as singularidades de cada pessoa colaboradora. 

Em maio de 2022, o Nubank fez o lançamento de uma coleção especial de aniversário. O NuNiver reuniu produtos como óculos, adesivos, garrafinhas, jaqueta, entre outros. Conforme a diretora de marca da empresa, a ação só foi possível a partir de uma escuta ativa feita com os clientes.  

Escuta ativa e políticas de DEI: como se relacionam?

Quando a empresa decide aliar a estratégia organizacional com uma política de diversidade e inclusão (DEI), as chances de obter melhores resultados aumenta. Isso porque esse entendimento permite que as ações não sejam isoladas ou pontuais. 

A escuta ativa está incutida nesses processos de transformação cultural nas empresas, pois é uma aliada na evolução da comunicação e na compreensão do outro, sendo componente de metodologias ainda mais amplas. 

Comunicação não-violenta e escuta ativa 

Na hora de definir um plano de ação para os clientes, nós, da Singuê, aplicamos a metodologia da Comunicação Não-Violenta (CNV) em todos os projetos. A escuta ativa é um processo importante nesses contextos e está presente no conceito da CNV.

Afinal, as pessoas podem conversar sobre temas difíceis que geram desconforto, porém, tomando cuidado em acolher a outra pessoa, e criar um ambiente seguro para conversar. 

Esse movimento de conversas difíceis é necessário em diversas situações: 

  • em uma conversa de rotina entre liderança e pessoa colaboradora;
  • quando é preciso endereçar um caso de racismo no ambiente de trabalho;
  • numa exposição de dificuldade enfrentada com um cliente;
  • em reuniões de equipe para discussão de projetos;
  • em conversas sobre plano de carreira etc.  

A CNV é uma prática regida pelo princípio de que podemos nos relacionar de forma mais consciente sobre o que nós e a pessoa com qual estamos falando está sentindo. Isso significa prestar mais atenção nas palavras e maneira que expressamos algo.

Você pode não notar com frequência, mas há desafios criados justamente pela forma que nos comunicamos ou não comunicamos por medo de algo. Assim, a CNV entra para ajudar a facilitar diálogos em relação ao entendimento sobre as necessidades das pessoas. 

Afinal, quando entendemos o outro, somos capazes de tomar decisões e contribuir com mais assertividade. 

A CNV foi divulgada pelo psicólogo Marshall Rosenberg. Ela possui quatro componentes fundamentais. 

Observação 

Consiste em identificar e descrever o que ocorreu de fato. Ao perceber que uma tarefa não foi concluída, é possível reclamar dizendo que essa já é a terceira vez que a pessoa não cumpre com o combinado ou começar a conversa dizendo: “Percebi que a tarefa não foi concluída…”. 

Sentimentos 

Para a CNV, os sentimentos são importantes porque acabam expressando necessidades não atendidas. Se um funcionário se sente desconfortável ou “deslocado” no ambiente de trabalho, pode ser que a necessidade de pertencimento não foi atendida. Atender esse tipo de necessidade é essencial quando o objetivo é inclusão. 

Necessidades 

De acordo com o Instituto da CNV Brasil, “A causa do que sentimos está nas nossas necessidades.”. Entender, portanto, que a pessoa colaboradora tem necessidade de ser reconhecida pode ser importante para planejar o repasse de feedbacks e evitar que o sentimento de aborrecimento surja.  

Pedidos

Às vezes, achamos que nossas necessidades são óbvias para os outros, mas não são. Ao fazer um pedido específico de forma objetiva, damos a oportunidade do outro entender o que precisamos. 

Como fazer uma escuta ativa no ambiente de trabalho

É possível praticar a escuta ativa nas empresas. Para isso, existem algumas ações que são bastante utilizadas, ainda mais em conversas com pessoas colaboradoras de grupos minorizados. 

Foque sua atenção na pessoa que fala 

Isso significa deixar de lado possíveis distrações, como a aba do WhatsApp aberta que tira sua atenção, o celular que pode vibrar com uma nova mensagem, o ruído do vizinho que pode ser abafado com um fechar de portas e janelas. 

Por mais que esteja ciente que alguém está falando com você, sua atenção está dividida e isso resulta em perda de informações. O contato visual é uma dessas perdas. 

Basicamente, minimize as distrações para não perder o foco da conversa. 

Não tire conclusões precipitadas 

Enquanto a outra pessoa fala, não tire conclusões antes que ela termine a exposição. É muito comum tentarmos emitir julgamentos ou respostas enquanto escutamos o outro, mas nesse momento, ouça atentamente e com empatia antes de qualquer coisa. 

Faça perguntas após a escuta 

Você não precisa ficar em silêncio absoluto o tempo todo, pelo contrário. Após ouvir alguém dizendo, por exemplo, que não consegue trabalhar com a mesma assertividade após as mudanças realizadas, você pode perguntar: 

“Você quer dizer que está frustrada com as últimas decisões tomadas pela empresa para os projetos?” 

Se ela responder, “sim”, pergunte:

“Por que você acha que isso está acontecendo?” 

A ideia aqui é entender qual a necessidade da pessoa. Talvez, ela precise de segurança e a nova configuração não trouxe isso a ela. Ou então, ela tem necessidade de liberdade e as últimas decisões tiraram a flexibilidade que ela tinha. 

Esse ponto é importante porque a maioria das pessoas quer crescer nas empresas e pensar em índices de satisfação e aceleração de carreira é uma tarefa importante de líderes que trabalham com DEI. 

Observe a linguagem corporal

Além da fala, as pessoas também se comunicam por meio de expressões do corpo. É válido que você saiba identificar e associar algumas dessas posturas com a fala da pessoa durante a conversa. Uma expressão facial de tristeza ou cansaço podem apontar que há algo que precisa ser melhor investigado. 

Se você gostou desse conteúdo sobre escuta ativa nas empresas, leia também: “Letramento racial para contribuir com o antirracismo nas organizações”.